Como driblar a autossabotagem

Já me perguntaram como eu consigo conciliar duas marcas (a Keikolina tema recorrente desse blog por motivos obvios, de toyart e artdoll, e a Poppy Baby, de swaddles, produtos pra ajudar a adaptação de recém nascidos a este mundão em que vivemos), e ainda manter o blog, anotar sonhos, cuidar da casa, cuidar de 5 gatos, ser casada, ter vida social, ver a família, fazer minhas próprias roupas, cuidar do jardim, etc.

É certo que tenho dois GRANDES facilitadores: o fato de não ter conseguido ter filhos, portanto o tempo que tenho ainda me pertence (há males que vem pra bem?); e ainda trabalhar em casa, então tô livre do trânsito a maior parte dos dias. Entretanto, sem um mínimo de organização essa coisa de home office pode se tornar uma grande armadilha, como ilustra muito bem esse divertido vídeo da comediante chilena Loretto Araya. Podemos acabar assumindo mais compromissos do que somos capazes de cumprir, com medo do período de vacas magras, por exemplo. Ou ainda podemos nos perder na procrastinação por simples bloqueio artístico.

O fato é que eu brigo com minha confusão pessoal desde sempre e, talvez por isso mesmo, esteja na busca de alternativas autoadministrativas já tem alguns anos. Aí, nessa onda de recomendação de leitura, resolvi falar de alguns livros que têm me ajudado bastante a vencer a autossabotagem. O Poder do Hábito, de Charles Duhigg é um desses livros.

Não é à toa que este livro tá em 10 de cada 10 listas de recomendações de leitura de não ficção. O autor explica porque é tão fácil um vício colar na gente e o que podemos fazer pra mudar isso. Eu mudei vários hábitos ruins meus utilizando os macetes ensinados aqui. E ele abriu as porteiras da organização na minha vida! Há, há! Isso porque depois que me desfiz de 50 coisas em cada área da minha vida como consequência das reflexões do livro da Gail (experiência que contei aqui), e perceber que tinha que me reinventar antes de apelar pro “plano B no fim do mundo” (falo disso num post futuro), me dei conta de que a zona não se arruma sozinha, por menos coisas que se tenha! E, caramba, como é difícil mudar velhos hábitos, mudar sintonias. Não adianta apenas querer mudar, tem alguns pulos do gato bestas e até óbvios… Só que eu e mais um zilhão de pessoas precisou ler esse livro pra se dar conta de que a gente é igual cavalo correndo atrás da cenoura pendurada na frente do nariz: precisamos, sim, de estímulos e de recompensas.

A coisa é um pouco mais complexa do que as pesquisas de Pavlov demonstraram, claro, mas vou dar um exemplo prático meu: eu sempre tive uma preguiça suprema pra fazer faxina. Só fazia quando a vida se tornava insuportável e então gastava o final de semana inteiro limpando, acabando com meu período de descanso. Ou seja, fugir da faxina me fazia mal e por isso elegi como o primeiro mau hábito que deveria atacar, pra realmente testar o método ensinado no livro.

Tem altas explicações teóricas, neurocientificas e tal, mas vamos pra prática que é o que interessa aqui nesse post. Primeiro o autor fala pra gente identificar uma “deixa”, um gatilho associado ao mau hábito ou ainda, que nos leva a reagir automaticamente como um bicho assustado (ora atacando, ora fugindo, ora cagando tudo mesmo). No meu caso, eu reconheci como “deixa” o fato de amar andar descalça em casa. Então, quando sinto o chão sujo sob a planta dos meus pés, é quando percebo que tá na hora da faxina. Hoje em dia minha “deixa da faxina” ficou mais complexa, mas explico em um post futuro. 😉

O segundo pulo do gato é reconhecer que haverá resistência e que vamos arranjar quinze mil justificativas pra fugir do que precisa ser feito. Então devemos fazer uma lista de soluções pra quando essas resistências aparecerem. No meu exemplo da faxina, a resistência mais comum é “não tenho tempo pra isso agora!” então separei as atividades em pequenas ações que podem ser diluídas ao longo da semana. Por exemplo, eu sei que passar uma vassoura na minha casa inteira pode levar 2h porque por mais que a casa seja pequena, eu preciso arrastar móveis e tals. Mas passar a vassoura apenas na minha sala não leva mais que 10 minutos. O processo inteiro de lavar a cozinha também pode levar 2h, mas lavar a louça também não leva mais que 10 minutos. Assim, na hora que a vozinha da resistência levantar a bandeira da “falta de tempo”, eu reajo conscientemente com “10 minutos, caramba! larga mão!” e faço imediatamente, ainda no pique da autobronca. Pensar em soluções pra vencer a resistência é o que o autor chama de “definir rotinas”.

O terceiro pulo do gato é definir recompensas! Sim, igualzinho ao adestramento de cães. Defina uma recompensa pra cada coisa feita como se deve. No meu caso, no começo, quando eu ainda fazia toda a faxina no sábado, eu tomava uma latinha de cerveja. No entanto, agora que eu fracionei a faxina da casa toda em dezenas de módulos de 10 ou 15 minutos, não dá pra ficar enchendo a cara todo dia o tempo todo, né? Alcoolismo não é algo legal. Então eu estabeleci que as micros faxinas seriam feitas na véspera de fazer algo muito massa. Por exemplo, lavar a louça do dia anterior pela manhã, pra apreciar um café da manhã tranquilo como recompensa. Ou tomar o melhor banho da semana, com direito a esfoliante, depois de limpar o vaso sanitário. Ou fazer o chamego diário nos gatos depois de limpar o banheiro deles.

Como pode ver, a solução não é milagrosa e exige um trabalho de personalização de hábitos. Claro que se você não tem animais de estimação, não terá nem a necessidade de limpar o banheiro deles, nem o prazer de receber o chamego. Então conhecer bem as próprias necessidades e o que te dá prazer é fundamental pra esse método dar certo. Além disso, na teoria tudo é lindo, mas a verdade é que mesmo com tudo isso programado, tem dias que tudo parece dar errado e dá vontade de reiniciar a vida. Quando a montanha de problemas parece tão intransponível que seria mais fácil morrer ali mesmo, atingida por um raio!

By Pixabay
Imagem via Pixabay

Pois é justamente a pré-definição de rotinas automáticas que me salvam nos dias de bad trip. Quando me reconheço na armadilha do “caramba, o que tô fazendo da minha vida que nada dá certo!” eu respiro fundo e luto contra a postura do bicho assustado que falei acima, sabe? (A do atacar, fugir ou me cagar toda). Antes do livro, minha reação automática era listar a montanha de problemas, sentar no chão e chorar. Atualmente, o gatilho é o “sentimento de fracasso” (geralmente disparado por perder a data de pagamento de um boleto hahaha). A rotina automática que aciono é desviar conscientemente o meu olhar da montanha intransponível e me concentrar em atacar um problema menor. Algo que eu sei que dou conta com os recursos que tenho no momento. Tipo os próprios 10 minutos de faxina, ou terminar um boneco inacabado há tempos ou ainda atualizar a lojinha com os produtos não vendidos nas feiras. Na verdade, não importa muito o que se faça, desde que sejam coisas práticas que teria que se fazer uma hora ou outra e que não exijam muita criatividade nem esforço mental, muito menos raciocínio estratégico. O importante é não tentar resolver o super problema num dia em que se tá mal. O segredo aqui é conseguir reconhecer se seu nível de força tá compatível com a batalha que precisa ser enfrentada.

Daí que, quando eu reconheço minha limitação momentânea, aciono o modo automático de mergulhar no micro-problema, esqueço por um tempo do abacaxizão e consigo respirar um pouco, meio que me inebriar com a ilusão de que tô fazendo algo pra melhorar. No começo da rotina automática eu sei que na real os problemas continuam existindo e que eu tô só me iludindo e que nada tá bem. Mas ainda assim mando minha autocrítica calar a boca e insisto no método e me forço a entrar conscientemente no modo “sorria e disfarça”. E, incrivelmente, aos poucos, sinto a vibe melhorar. Os problemas continuam a existir, claro, mas esse faz-de-conta momentâneo me ajuda a não desistir, me ajuda a tomar distância. E de repente percebo que a montanha talvez nem seja tão grande assim, aliás, é até possível que dê, sim pra contornar… Quando me dou conta, a esperança voltou. <3

Na prática, significa que esqueço por algumas horas da minha conta no vermelho, do condomínio atrasado, dos pedidos que não entram, da falta de ideia pra fazer aquela encomenda ou qualquer que seja o bloqueio que tá me aterrorizando no momento. Enquanto tô no modo automático fazendo algumas das rotinas que pré defini pra essas horas, tais como atualizar as fotos no instagram, de repente acontece de alguém curtir, talvez até comentar positivamente e percebo que o que eu faço alegra o mundo de alguma forma. Ou ocorre uma venda lá no meu mini sebo de livros do Mercado Livre e entra 20 contos – que não vão pagar o condomínio, claro que não, mas me dão motivo pra passar no Correio e ocupar minha cabeça com outro micro-problema. E, assim, vou superando outro dia ruim, de micro-problema em micro-problema. E a cada micro-solução encontrada, vou me fortalecendo novamente pra, lá na frente, noutro dia, talvez noutra semana, eu consiga estar forte suficiente pra, enfim, encarar a montanha e pensar numa estratégia realmente eficiente pra enfrentar meus GRANDES problemas.

Enfim, quando me bate a bad – e a verdade é que bate com mais frequência do que gostaria de admitir – o que funciona pra mim é me manter em atividade, por mais que a vontade seja de me enterrar viva. As minúsculas vitórias a curto prazo, desde conseguir arrumar a cama ou fazer o café, a longo prazo podem me ajudar a escrever um post novo no blog ou ainda ter uma idéia massa pra uma nova linha de bonecos. E – IMPORTANTE! – não dar ouvidos a autocritica quando ela sussurrar aqui no ouvido que sou uma fraude por não conseguir atualizar o blog com a frequência prometida. Por algum motivo que desconheço ainda, talvez porque agir leva a mudança e mudanças sempre dão medo, por melhor que sejam, a gente tem a tendência de se autossabotar demais. Então o certo é não dar tanta atenção assim pra autocrítica nessas horas de fragilidade. É, de preferência, silenciá-la o máximo possível especialmente nos dias de bad. A autocrítica só é útil nos dias de muita força, amor próprio explodindo e estratégia megalomaníaca – e olhe lá.

A ideia é fazer como a Dori, de Procurando Nemo, sabe? “Continue a nadar, continue a nadar!” Seguir em frente por mais difícil que esteja, porque ao menos a movimentação impede a atrofia. E porque é isso mesmo, na grande maioria das vezes ESTAMOS bloqueados, NÃO SOMOS bloqueados. Uma hora que estivermos mais forte a gente pára pra rever a estratégia, se planeja e tals. Mas tentar rever a estratégia quando estamos na bad e sem esperança SEMPRE vai dar ruim. O importante é termos consciência de que sim, podemos ser a capitãs de nosso navio, mas estar ciente de que haverão momentos que precisaremos acionar o piloto automático, daí a necessidade de pensar em rotinas pros momentos de crise. E isso não é (só) discurso de autoajuda. É prática mesmo. 😉

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