Como você se relaciona com seu inconsciente?

Ok, já contei sobre quando comecei a desconstruir meus castelinhos pra me tornar um ser humano menos complicado, aqui nesse post e nesse também. Mas foi só em 2017 que embarquei numa jornada pra conhecer minha intuição. Isso certamente veio da minha necessidade de tirar mais daqui de dentro pra expor na Keikolina, na tentativa de fazer meu trabalho ficar mais genuíno, autoral e corajoso. A coisa toda é um processo longo, já deu pra sacar, então acho q só vou realmente colher os frutos dessa jornada lá em 2020, com sorte e dedicação. Mas, se eu não começasse agora, lá em 2020 eu ainda estaria insatisfeita com meu eu artístico, então algo precisava ser feito e logo.

Ja tem um ano que mantenho um diário de sonhos na cabeceira da cama, onde eu anoto o sonho antes mesmo de dar bom dia pro meu marido. Adquiri esse hábito desde que sonhei com minha Spirit Doll, mas isso é história pra outro post. <3 De vez em quando, quando o sonho é muito interessante, publico na minha pagina do facebook usando a hashtag #KeikoSonha. Se ficou curiosa, fique à vontade pra espiar. Eu até ia colocar o sonho que conto nesse post lá, mas aí resolvi expandir o assunto pra indicação de leitura aqui no blog. Aliás, o livro que vou indicar foi um achado! Tava no setor exotérico, mas deveria estar lá em psicologia! 6.6′

Sem aquela linguagem complicada e pesada de Jung ou Freud, Por Que Sonhei Com Isso? De Lauri Quinn, ensina a gente a interpretar todos aqueles sonhos loucos que a gente tem, inclusive aqueles constrangedores ou vergonhosos, de forma clara, muito intuitiva e sem esquisoterismos, nem tabelas simplistas ou preconceituosas. O mais legal foi descobrir depois que a autora também é uma ilustradora com um trampo muito massa, que faz pinups de pessoas comuns como eu ou você sob encomenda! Eis aqui o site dela, se ficou interessada. =D

Pra você ter uma idéia de como o livro é interessante, vou contar um sonho que tive nessa semana do Carnaval 2018, que em outros tempos me deixaria super cabreira mas que, por ter lido o livro, achei muito muito massa!

Na primeira parte do sonho eu estava passando pela linha amarela do metrô de São Paulo quando uma pessoa X me convidou pra conhecer o novo empreendimento que estavam lançando: cabines sexuais. Eram cabines bonitinhas, bem montadas, limpinhas e com boa aparência, do tamanho de banheiros químicos, que você podia desfrutar de uma rapidinha com algum convidado seu, podia contratar os serviços de um(a) profissional ou apreciar o pacote virtual. A modalidade suruba estava disponível apenas no pacote virtual, claro, devido ao tamanho das cabines. Meu inconsciente, nenhum pouco envergonhado, quis experimentar as 3 modalidades. Como eu estava com meu marido, a primeira modalidade fui apreciar com ele. Achamos divertido e interessante, pela sensação de estarmos em um local público, mas acabou sendo rapidinha mesmo. A segunda modalidade eu quis experimentar com uma profissional feminina, e justifiquei no sonho que era a oportunidade de vivenciar algo diferente, também gostei muito. Na terceira modalidade, a virtual, fiquei um pouco incomodada com a possibilidade de ser realmente muita gente e pensei em experimentar algo mais simples, mais intimista mas no meio achei meio brochante por causa dos objetos e máquinas envolvidas, então me desinteressei e saí da cabine.

Voltei pro meu percurso original no sonho, que era uma festa de despedida na casa de uma amiga, entrando já numa segunda parte do sonho. Na vida real essa minha amiga mora em um apê alto em um prédio alto, e no sonho esse apê era na realidade uma casa à beira de um penhasco, com vista perigosamente panorâmica pra uma catarata enorme. Ao longo da festa descobri que a despedida era pra mim e que eu deveria escolher como deveria me matar, pois ela e todos os presentes iam me ajudar na tarefa. Eu considerei todos os meios disponíveis, havia arma de fogo, faca, a própria cachoeira… eu fiquei um tempo entre a cachoeira e o sonífero, mas optei pelo sonífero no fim das contas. Ela ficou contente com minha escolha, confessou que temia que eu fosse realmente me jogar na cachoeira, porque era uma escolha dramática que combina com meu estilo, mas que ia dar bastante trabalho pra todos depois e que o sono eterno era bem mais tranquilo pra todos.

O Jardim das Delícias Terrenas, tríptico de Hieronymus Bosch, 1504, na minha opinião uma das melhores representações do inconsciente.

Em outros tempos eu teria ficado encucadésima com os dois sonhos. Um mais estranho/constrangedor que o outro! Porém, como eu li o livro da Lauri, saquei que na verdade ambos os sonhos são muito bons e são uma mensagem positiva que meu inconsciente enviou pra mim e nada tão fora do esperado como a princípio parece. Começando pelo fato de ter sonhado com dois lugares que frequentei nesse feriado de carnaval. Eu tinha ido na casa da minha amiga do apê alto na tarde anterior e usado a linha amarela do metrô pra chegar lá (eu moro na periferia e esta é a linha de metrô que eu pego quando chego no centro expandido). Geralmente o inconsciente usa elementos do dia como ingredientes pra compor a mensagem que precisa passar pro nosso consciente. A primeira metade se passa em um ambiente público, em uma empresa em um local de passagem. Ao meu ver está bem claro que se refere à minha vida profissional/pública. O segundo local é privativo e razoavelmente perigoso. Lembro que eu fiquei ao mesmo tempo maravilhada e com medo da casa no penhasco. Entendi que se referia ao meu próprio self.

Sonhos com sexo podem ser bastante divertidos ou bastante perturbadores, principalmente dependendo do(a) parceiro(a) durante o ato, porém Lauri explica que eles falam de união de características. Pelas palavras dela: “Escolha três palavras pra descrever seu amante no sonho. Aplique essas palavras a si mesmo e à sua vida. Ela seria bem melhor se você tivesse essas qualidades?” Sexo num sonho não representa o desejo real, mas uma união metafórica que gostaríamos de ter. Ou seja, eu sonhei com meu marido, alguém com quem já tenho profunda intimidade em uma parceria bem sucedida que já dura 10 anos. Ele pode representar tanto a si mesmo nesse sonho como o meu próprio ânimus, a parte masculina da minha psiqué, já que estamos ambos em momentos paralelos da vida, no mesmo ritmo, na mesma vibe. Essa união que tivemos em sonho pode representar que eu deva ressaltar minhas características consideradas no inconsciente coletivo como masculinas no ambiente profissional. E se eu, que sou hétero, sonho com sexo lésbico, possivelmente estou me congratulando por ter feito algo muito empoderador pra minha psiqué feminina – e, bom, de fato estou fazendo algo muito legal pra meu empoderamento como mulher, que vou abordar mais adiante. Além disso, eu escolhi ter uma relação com outra mulher. De fato eu tenho focado tanto a Keikolina quanto a Poppy, ambas pro público feminino e estou gostando desse caminho que dei pra as marcas. Por fim, devido a ênfase que tenho dado ao autoconhecimento nas prioridades da minha vida, tenho tido trocas muito mais interessantes nas relações pessoais e profissionais ou mesmo virtuais. E de fato tenho achado mais interessante as trocas presenciais, pois é nítido como no mundo virtual as pessoas se comportam diferente do que são de fato. Então, resumindo, meu inconsciente ta dando o “ok, vc tá mandando bem nas trocas, tá funcionando, ta sendo legal pra você e pras outras pessoas.” 

Quanto ao trecho do sonho do suicídio assistido, Lauri sugere que sonhos com suicídio revelam a necessidade de “um final ou mudança forçada em sua vida ou seu comportamento.” Ela fala pra gente procurar que parte da personalidade ou da vida seria bom mudar. Observando o contexto do meu sonho, bom, tanto eu quanto essa minha amiga do sonho somos artistas freelancer e estamos na eterna luta de melhorar como artistas, como seres humanos e ainda por cima pagarmos nossas contas, sermos independentes etc. Ambas lutamos contra nossas sombras e vivemos diariamete às voltas com nossas próprias limitações e, ocasionalmente, compartilhamos essas dores. Achei muito interessante ter sonhado justamente com ela me ajudando nesse processo de auto transformação forçada porque estou, desde o final de 2017, montando um grupo de minas com esse mesmo propósito, de termos um grupo seguro pra falarmos de nossas inseguranças e transformações como mulheres, artistas, seres intuitivos, etc e tal. E eu a convidei pra esse grupo, mas ela optou por não aceitar o convite. O grupo tá em formação ainda, e já está colhendo bons frutos, fortalecendo amizades e trocas e, claro, ainda sinto que seria muito legal tê-la conosco, mas tenho que respeitar a escolha dela pelo caminho solitário. E meu sonho deixou isso bem claro. Por mais que eu esteja conseguindo incentivar trocas muito interessantes entre as integrantes do grupo, de qualquer maneira, na prática, o caminho do autoconhecimento será sempre uma jornada solitária. O máximo que poderemos fazer umas pelas outras é assistir, estar lá pra juntar os caquinhos se necessário, e celebrar a autotransformação.

Desnudando assim a interpretação do sonho, ambos são profundos e revelam uma mensagem até óbvia depois de traduzida. Basta primeiro a gente tirar o véu dos preconceitos e pudores. Na real, Lauri explica no livro que nossa mente inconsciente utiliza nosso próprio repertório de metáforas, trocadilhos e simbologias pra nos passar o recado que precisamos receber pra sair das roubadas que nós mesmas nos metemos! E as vezes, se o recado não foi recebido com um sonho com gatinhos fofinhos, pode ser que ele volte na forma de um vampiro assustador. Quanto mais a gente demora pra reagir e mudar o curso, mais intensos e estranhos os sonhos ficam! Cada pessoa é um indivíduo único, com um repertório único, portanto, a linguagem do inconsciente também é exclusiva e o único que a domina completamente é o inconsciente. O Diário de Sonhos ajuda muito a conhecer esse nosso repertório submerso e, principalmente, a linguagem que nosso inconsciente usa. Pessoalmente acredito que boa parte das respostas que procuramos na vida estão camufladas no inconsciente. E também acredito que artistas são aqueles que aprenderam a brincar com esse repertório único. Ou seja, se eu quero respostas e quero ser uma artista minimamente interessante, aprender esse idioma doidão do inconsciente é tarefa obrigatória! Além disso, o diário dos sonhos é uma das melhores ferramentas de autoconhecimento que conheço por ser portátil: tendo um papel e caneta na mão assim que acorda, já da pra colocar em prática.

Mas e quando a pessoa não se lembra nunca dos sonhos que tem? Bom, aí precisa de um empurrãozinho com algumas dicas:

1- Seguir as dicas básicas pra uma boa noite de sono, como dormir sempre no mesmo horário, numa cama confortável, etc. Com o tempo sua mente passa a entender a rotina como um sinal de que está na hora do corpo descansar pro inconsciente trabalhar. Não desanime se na primeira semana ainda não obtiver resultados. A mente precisa recobrar a confiança de que a rotina vai prevalecer.

2- Desligar os eletrônicos uma hora antes de dormir pra colocar seu corpo e sua mente na sintonia adequada ao descanso restaurador. Se você puder incluir nesse período sem eletrônicos uma série de atividades rotineiras, a mente entende como parte do ritual pra dormir, facilitando ainda mais. Por exemplo, conferir a agenda do dia seguinte tomando um chá calmante, higiene pessoal sempre na mesma sequência definida e encerrar com meia hora de meditação com música relaxante e um incenso (mas certifique-se de que está apagado antes de dormir!).

3-  Tomar uma boa xícara de chá calmante, como camomila, por exemplo, que é fácil de achar em supermercado. Mas se quiser algo mais exclusivão, procura por chá de artemísia nas casas de produtos naturais. Esse chá é recomendado inclusive pra quem quer ter sonhos lúcidos – aqueles sonhos em que você percebe que está sonhando e consegue fazer escolhas conscientes dentro do sonho.

4- Reservar pelo menos 7 horas de sono restaurador. A grande maior parte do tempo a gente não sonha nada inteligível mesmo. Mais da metade do tempo dormindo é só saco de repertório sendo chacoalhado, tudo bagunçado e misturado. O sonho mesmo com mensagens interessantes só vêm lá no final da noite de sono, quando o inconsciente conseguiu montar uma colcha de retalhos com tudo o que você acumulou de informação e quando você vai conseguir se lembrar depois pra poder interpretar e decidir o que fazer a respeito.

5- Assim que acordar, evitar mudar de posição e recontar pra si mesma em pensamento tudo do que se lembra no sonho. Não pegue o celular nem nada que possa mudar sua mente de foco. Inclusive se você divide a cama com alguém, finja que continua dormindo até terminar de recontar a história pra si. Eu mesma tenho o acordo com meu marido que só dou bom-dia depois de registrado o sonho.

6- Se mesmo assim não se lembrar, tente puxar o fio do sentimento. Feche os olhos novamente e se pergunte qual o sentimento relacionado com o sonho. Você estava sozinha ou com alguém? O que estava fazendo? Faça essas perguntas na mesma posição em que dormia. Seu corpo não diferencia muito bem o que é realidade do que é sonho, então se manter na mesma posição e resgatar as sensações que estava sentindo realmente ajuda.

7- Recontar pra si o sonho quantas vezes for necessário até pegar o papel e caneta. Por isso recomendo deixar o caderninho e a caneta ao lado da cabeceira da cama.

8- Não se preocupe se a letra está garranchosa. O que importa é você conseguir registrar o sonho. Depois, se achar necessário, pode reler e corrigir as palavras ilegíveis. Mas o fato de ter conseguido registrar boa parte vai te ajudar a reconhecer a palavra ilegível em questão. A verdade é que é até interessante que fique ilegível pros outros. Seu caderno de sonhos deve ser lido somente por você, afinal é seu diálogo com seu inconsciente em um idioma que só fará sentido pra você. Outra pessoa que ler vai ter outro repertório e interpretar tudo cagado, podendo gerar até conflitos!

9- Se conseguir, já faça a interpretação na sequência. Se não for possível, deixa lá registrado e bola pra frente. Os sonhos seguintes que você registrar possivelmente vão ser complementares àquele sonho indecifrável e vão acabar tornando-o decifrável com o tempo.

10- Pra interpretar os sonhos, se atente pra metáforas, figuras de linguagem, trocadilhos… Conhecer bem sua língua materna é muito útil, assim como lembrar dos ditados populares da vovó do tipo “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”, “melhor um passarinho na mão do que dois voando”, etc.

Acho que por enquanto é isso. Se tiver mais dúvidas, escreve aí nos comentários ou manda email :-* keikolinacraft@gmail.com

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