Ikigai – A influência do Xintoísmo na minha vida

Quando fiz 8 anos fui morar com minha mãe e meus avós japoneses, no interior. Foi a primeira vez que vivenciei uma rotina regrada, com uma família estável e recebendo a devida atenção, tanto nas broncas justas quanto nos momentos de ternura. Na época eu não reconhecia a espiritualidade nas muitas práticas cotidianas da família, achava que eram coisas comuns em toda família estruturada, ou ainda, que eram manias dos meus avós. Entretanto, hoje percebo que o impacto menos explícito porém mais profundo da presença deles na minha vida foi o cotidiano xintoísta.

Não era mania, era hábito espiritualizado

Fui começar a perceber a sacralidade nos rituais cotidianos dos meus avós ao assistir, já adulta, as animações do estúdio Ghibli. Até hoje me emociono com a nostalgia de Meu Vizinho Totoro e A Viagem de Chihiro, dois filmes que traduzem perfeitamente a noção de pertencimento que a cultura japonesa trás pra quem ela abraça. Sim, é preciso dizer que o Xintoísmo não é necessariamente acolhedor com curiosos. É a expressão espiritual de uma cultura milenar, que só se revela pra quem vivencia seus hábitos cotidianamente. Então, pra quem vê de fora parecem só um amontoado de manias ou, pior, de superstições.

A dificuldade principal pra perceber essa linha entre ritual cotidiano e ritual espiritual é que, quando crescemos imersos em um contexto definido, simplesmente não conseguimos separar um do outro. Por exemplo, se você cresceu em um lar católico, não se lembra quando aprendeu a fazer o sinal da cruz e possivelmente até hoje deve fazê-lo sempre que passa em frente a uma igreja. É um gesto tão natural pra católicos que talvez não notem que somente cristãos o fazem. Pra se ter uma ideia, eu fui aprender a fazer o sinal da cruz já tinha 12 anos, quando fui na igreja da minha amiguinha da escola. E me sinto meio ridícula toda vez que faço até hoje, uma vez que não tenho certeza se é pra fazer da direita pra esquerda ou da esquerda pra direita – faço sempre em respeito ao momento (geralmente um velório, casamento ou batizado) e copiando quem estiver comigo. Por outro lado, pra mim é muito natural tirar os sapatos quando chego em casa (pra não trazer pro íntimo do lar as coisas de fora), bater palmas duas vezes quando quero me concentrar (ou pra invocar a atenção dos deuses e ancestrais), ou simplesmente reverenciar uma árvore muito antiga (porque certamente nela habita algo muito mais antigo e sábio do que todos os humanos no local).

Meus avós nunca foram de frequentar templos e acredito que, em partes, seja pelo contexto histórico em que chegaram, pouco após o conflito da Shindo Renmei, quando parte da colônia japonesa não acreditava na derrota do Japão na Segunda Guerra (um dia escrevo sobre meu tio bisavô, personagem interessante dessa História e coloco o link aqui). Porém, em partes também porque não é necessário um templo pra exercer essa espiritualidade. É natural do Xintoísmo trazer a espiritualidade pro cotidiano, pra dentro de casa.

Os templos existem mais pra guardar os itens sagrados, o material das festas populares e manter o registro das tradições da comunidade. Não são locais onde as pessoas se reúnem pra rezar coletivamente. Tanto é que quase nenhum templo tem salão grandão onde todos se reúnem. Os fiéis (se é que podemos chamar assim) podem entrar somente até o pátio interno já que o altar propriamente dito é restrito aos sacerdotes – que inclusive podem ser pessoas comuns treinadas e dedicadas a serem zeladoras da tradição. As experiências coletivas dos xintoístas são basicamente festas populares, os famosos Matsuri, festivais realizado em praças e ruas. Não há culto, missa ou coisa parecida realizado em salão fechado, e sim apenas cerimônias de abertura e encerramento dos Matsuri, no local do festejo. Em São Paulo, capital, acontece na sexta-feira anterior e na segunda-feira subsequente ao final de semana do festival, provavelmente Oshogatsu (Festa de Ano Novo) e Tanabata (Festa das Estrelas, em julho), na própria praça da Liberdade. As experiências místicas propriamente ditas são individuais, internas à família, assunto de foro íntimo. Um exemplo simples e evidente disso: meus avós mantinham o altar particular da família, com fotos dos pais e avós deles, no quarto deles, onde acendiam incensos diariamente.

Coisas de Ojii-tchan e Obaa-tchan

Meus avós descansando no passeio matinal. Uma singela volta no quarteirão, aos 98 anos, era uma grande aventura!

Pelo menos até meu avô chegar aos 90 anos, ele acordava as 6h da matina pra fazer taissô todo dia. E todo o cotidiano deles era praticamente cronometrado. De tal hora a tal hora, tal atividade, o dia inteiro, até dormir. Atualmente tô no esforço individual de recuperar essa disciplina, mas confesso que é mais difícil do que me lembrava. Agora que retomei o blog, vou fazer aquele post prometido sobre FlyLady e método GTD, dois métodos de organização que tem me ajudado nesse processo, os quais prometi escrever a respeito. =)

Porém, o hábito que mais chamava minha atenção eram as saudações pra tudo! Quando acordávamos e quando íamos dormir, saudação pra quando chegava em casa e quando saiamos de casa, saudação pra antes e após a refeição. Qualquer pessoa que se encontrasse, uma reverência ao cumprimentar e outra ao se despedir. E, quando a família estava toda reunida e havia “gotissô” (comida boa) sempre colocavam um pouco de oferenda pros ancestrais, saudando-os obviamente. Era importante bater palma duas vezes ao acender incenso no oratório ou colocar a oferenda. E, no primeiro dia do ano, sentávamos todos diante desse mesmo altar e meu avô entoava um mantra pra que nossos ancestrais protegessem a família.

Muito disso eu encarava apenas como “educação”, mera expressão “cultural”, ou até pura chatice cerimoniosa dos meus avós. Até ter uma noção melhor, depois de madura, do que vem a ser Xintoísmo e Zen Budismo, duas coisas meio difíceis de dissociar entre si e tão impregnadas da cultura japonesa. Do Xintoísmo vem o registro das tradições, o senso de comunidade, a reverência aos ancestrais e, principalmente, a prática cotidiana. É como se o japonês acreditasse que nenhuma filosofia é útil se não puder ser mantida e praticada diariamente. E que filosofia é essa? O Zen Budismo, claro. A impermanência, a beleza da efemeridade, do que é fugaz e de reverenciar as marcas da vida e, por isso mesmo, a busca por fazer do dia-a-dia a melhor existência possível. A ideia de trocar o resmungo, seja pensando no passado ou no futuro, por fazer valer a pena o ar que respiramos hoje. É preciso deixar claro que meus avós nunca foram muito filosóficos. Eles eram mais da vida prática, mão na massa. Mas, mesmo sem elucubrar em cima e sem se afirmarem zenbudistas, seguiam exatamente esse modo de encarar a vida: viver a melhor versão de si mesmos todos os dias. Traçar um plano e simplesmente seguir sem parar.

Não sei quanto a outras famílias japonesas, mas no caso da minha há ainda a bênção e maldição do orgulho teimoso, uma vez que faz apenas cerca de 100 anos que o último samurai da família se foi. É uma herança recente cujos efeitos ainda sentimos na cobrança diária de excelência. O mínimo que se espera de alguém da minha família é ser alguém que se esforça pra fazer o seu melhor todo dia, como se a sobrevivência do legado da família inteira dependesse disso. Como se os ancestrais fossem voltar pessoalmente pra nos auxiliar no Sepukku (cerimônia de suicídio assistido pra recuperação da honra) em caso de desistência. Sim, pra minha família, a desistência da luta é crime maior do que o fracasso. E é como sinto até hoje, que é preciso permanecer em pé, não importa a batalha que estejamos enfrentando. Uma pressão dos diabos, sim, mas me mantém na luta apesar de tudo. Gambarê!!

Nisso de um dia após o outro, os hábitos e rituais diários ganham um peso enorme na construção do caminho. É como se cada hábito alimentado fosse um tijolinho da estrada pavimentada até o objetivo traçado: uma vida bem vivida. Mas isso, na prática, significa transformar o gesto almejado em um ritual automático, agir corretamente sem pestanejar. É esse o método de todas as artes marciais japonesas inclusive: repetição até que não haja racionalização em cima. Porém, é preciso ressaltar: o objetivo não é automatizar TODOS os gestos, mas apenas aqueles que vão nos ajudar a seguir adiante exercendo a melhor versão de nós mesmos.

Osooji, a faxina que é um evento

Coleção de Laca da minha obaa-tchan.

Nesse período de virada do ano, uma grande limpeza envolvia a família inteira, o Osooji. Do jardim aos guarda-roupas, passávamos dias limpando a casa, retirando o que não queríamos ou não precisávamos mais manter, de roupas apertadas ou surradas a equipamentos quebrados que não pudessem mais ser consertados. Lembro da tristeza da minha avó quando descobriu um ninho de formiga nas gavetas de lençóis…

A ideia do ritual de limpeza anual de certa forma é a mesma de qualquer ritual de Ano Novo: se despedir do que não nos serve do passado pra preparar terreno pro que o futuro nos reserva, porém com o acréscimo de incluir a manutenção e cuidado com o que deve permanecer e orientação das novas gerações. Tanto que era comum estar no meio de uma faxina braba e interromper tudo pra ver algum tesouro familiar redescoberto, ouvir sua história novamente pra que sua importância fosse reforçada. Era especialmente mágico encontrar os álbuns de família, com ancestrais de Kimono em imagens de nitrato de prata e descobrir que aquelas pessoas imponentes eram meus trisavós, ou que aqueles objetos delicados viajaram por meses de navio em caixas de madeira pra chegar aqui no Brasil.

Uma lembrança divertida é meu avô explicando que a necessidade de limpar e colocar as coisas pra tomar sol no Osooji, é devido a objetos antigos criarem vida própria. Que coisas antigas, se bem cuidadas, se tornam amuletos, que trazem sorte e proteção à família. As mais antigas ainda podem até se tornar Kami (deuses protetores)! Porém, se abandonadas e mal cuidadas, viram um obakemono (fantasma, objeto mal assombrado) e trazem azar e maldição.

Herança e hereditariedade

Casa da família da minha avó, em Ehime-ken. Sofreu reformas e modernizações, mas as fundações tem pelo menos 500 anos.

Outra coisa curiosa sobre tradições familiares: meus avós ainda seguiam o conceito de linhagem feudal. Ambos vieram do mesmo tronco familiar, ela do ramo principal, que tem 500 anos de História registrada, ele do ramo secundário, criado há 300 anos. Ou seja, eram primos com distância de 8 gerações. Inclusive, na minha família, os herdeiros (homens primogênitos) recebem o sufixo ou prefixo Tsuna (significa corda, laço, nó, elo) no nome. Hisatsuna, Tsunatoshi, Yoritsuna, Tsunao… Em ambos os ramos da família, que fique claro. Estudando o pergaminho com a genealogia dos primogênitos da família, confirmei que essa prática ocorre desde 1600. A história anterior a 1600 tem cara de xaveco e autopromoção, uma fake news muito bem construída, remontando a sobrenomes clássicos da era Heian (séc VIII)! haha Mas a partir de 1600 consigo acreditar no pergaminho. =)

Como primogênito leia-se primeiro filho homem. Em caso de não haver filhos homens, a filha mais velha que se casasse podia reivindicar que seu marido se tornasse o herdeiro. Isso significa ele abrir mão de seu sobrenome e herança original (inclusive vi casos no pergaminho de dois nomes, antes “Fulano”, depois do casamento, “Fulanotsuna”), assumir o nome da família e, com isso, o ônus e o bônus de ser herdeiro: cuidar dos bens da família, dos idosos, das irmãs solteiras e, principalmente, do cemitério – que no caso do meu avô tinha 300 anos e 8 gerações enterradas. Quando mais nova eu achava que era tudo esquisitice machista e antiquada de família, mas hoje entendo que são práticas xintoístas, rígidas e pensadas justamente pra garantir a continuidade do legado. Possivelmente funcionaria também se fosse o herdeiro pudesse ser uma “primogênita”, mas todas as demais regras continuariam valendo – obrigatoriedade de cuidar dos idosos, dos familiares solteiros, de providenciar herdeiros.

Atualmente já não faz muito sentido manter todas as práticas, uma vez que meu avô já havia balançado com as tradições ao abrir mão da herança no Japão, que no pós-guerra se reduziu ao famigerado cemitério, e escolhido seguir os passos do meu tio bisavô aqui no Brasil. Mas mantemos algumas práticas, como a do Hotokesama (altar caseiro), acendendo incenso semanalmente pros ancestrais pedindo proteção ou praticando o Osooji de fim de ano.

Ikigai – razão de viver

Em 2016 meu avô partiu aos 100 anos e 1 mês completos. Esteve com saúde até os 98 anos, quando começou a demonstrar mais claramente os sinais de velhice, esquecimentos, confusões, mais um monte de frustrações por não conseguir fazer com que o corpo correspondesse com sua vontade de viver infinita. As vezes eu tinha a impressão de que minha avó ficaria satisfeita de viver até ele partir, outras vezes parecia que ela também queria cumprir a meta dos 100 anos. No fim, minha avó faleceu esse ano de 2018, aos 98 anos.

Todos da família passamos esse segundo semestre inteiro digerindo a partida de ambos. Presenças tão marcantes, influências tão duradouras, ele sempre desafiador e visionário, ela sempre apaziguadora e provedora. Ambos se revezando no papel de direcionar e impulsionar o outro, um exemplo e tanto de companheirismo e paciência!

Esse processo de vivenciar o luto ocorreu paralelamente a uma busca pessoal mais intensa pela espiritualidade e, inevitavelmente, pela ancestralidade também. Por isso, na partilha dos tesouros dos meus avós, lembrei da crença de como nascem os amuletos e kamis familiares que comentei acima e escolhi alguns objetos de uso pessoal de ambos, os quais já consagrei e estou usando como armas mágicas. Aproveitei pra criar algo contemporâneo e só meu, afinal nenhuma bruxa moderna com tal histórico de ancestralidade perderia essa oportunidade, não é mesmo?

Já estava escrevendo esse post, viajando entre descrever a influência de ambos na minha vida, Xintoísmo e tals quando, como sempre, a providência joga na minha mão um livro que descreve o estilo de vida dos dois: Ikigai – O segredo dos japoneses para uma vida longa e feliz, de Héctor García e Francesc Miralles. Ou seja, pra quem não cresceu em um lar japonês tradicional, eis a chance de entender, pela lente ocidental, o pensamento e modo de encarar a vida dos japoneses. O livro descreve o conceito Ikigai – razão de ser – dos japoneses. Simplesmente encontrar um bom motivo pra seguir adiante e seguir disciplinadamente o caminho traçado. Sob o ponto de vista da auto-ajuda ocidental, seria basicamente a intersecção entre paixão, missão, profissão e vocação. Já na magia, eu entendo que seria o equivalente à busca da Verdadeira Vontade. E, pra alcançá-lo, alimente cotidianamente estilos de vida individual, familiar e comunitários saudáveis, aliado a MUITA, mas MUITA meditação.

Porém, eu pessoalmente acredito que o Ikigai pode mudar ou não ao longo da vida, acompanhando a mudança de prioridades da pessoa. Por exemplo, tenho certeza de que nos primeiros 30 anos o Ikigai da minha avó foi aprender a cuidar do lar. Era realmente era excepcionalmente talentosa nisso. E quando casou, o ikigai dela passou a ser cuidar da família, o qual fez com uma excelência ímpar! E os últimos 40 anos passou a ser cuidar do bem estar do meu avô, o que era lindo de se ver! <3 Já o Ikigai do meu avô, no início era estudar. Ele realmente gostava de aprender de tudo um pouco. Depois passou a ser cuidar da família e ensinar as tradições que eram possíveis de serem mantidas. Ele era um grande professor! Nos últimos 30 anos desconfio que passou a ser alcançar os 100 anos… haha Ele só falava nisso!

Já o meu próprio Ikigai sempre foi trabalhar com arte. Um período eu sonhei ser ilustradora, em outro ser quadrinhista, depois escultora. Atualmente eu fico feliz de viver de arte, independente do suporte. Vivo focada em expressar o que eu sinto que tá voando por ai, é lindo, é importante e só precisa de alguém que consiga traduzir… e eu acredito que consigo ser essa intérprete. Esse é o meu Ikigai: ser intérprete de sonhos. <3 Entretanto, como pode imaginar, meu ikigai não se encaixa tão facilmente nas engrenagens sociais quanto os dos meus avós. Eu não sonhava em ser uma mãe, esposa e rainha do lar fantástica como minha avó e não faço questão de viver até os 100 anos… rs No meu caso, tomar consciência de que minha vontade de viver implicava também em remar contra a maré e ser artista num mundo tecnicista. E significou assumir uma atitude um tanto egocêntrica, sem filhos, sem responsabilidades maiores que minha subsistência. Seguir minha Verdadeira Vontade me levou a abrir mão de centenas de outros caminhos possíveis e provavelmente igualmente bonitos que, entretanto, não eram meus. Trabalhar CLT e ter 3 filhos talvez fosse incrível, mas estaria vivendo o ikigai de outra pessoa. O meu Ikigai, que é só meu e ninguém tira de mim, é viver de arte. 

Ou seja, não tem jeito, galera. Pra ter a chance de encontrar a razão de viver é preciso mergulhar no autoconhecimento, seja aqui, seja no Japão. O que pode ocasionar percorrer caminhos muitas vezes espinhosos numa jornada interior, olhar no espelho e se reconhecer menos afinada com a ordem social do que imaginava e possivelmente ser julgada por isso. Mas, com disciplina e dedicação a gente consegue encontrar motivos reais e sinceros pra viver. O que me leva a questionar… o que vem antes? A determinação pra seguir adiante na razão de viver ou a razão de viver pra encontrar determinação pra seguir adiante? Fica aí o questionamento! XD

É isso! Com essa mensagem de esperança e muito trabalho que me despeço por hora. Espero tê-la/lo como companheiras/os nessa jornada daqui em diante! Nos vemos em 2019!

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