Representatividade importa

A Keikolina está em constante construção, mas existe um valor que tá presente desde o comecinho, quando ainda nem sabia que ia trabalhar com bonecos: a Representatividade. Quero que quem possuir um produto meu se sinta confortável e identificado com e por ele. Mas esta publicação não é sobre mim ou sobre a Keikolina, mas sobre essa tal de Representatividade. Quem melhor para falar disso do que alguém que sente na pele essa questão todos os dias

O texto a seguir foi publicado no perfil pessoal da Luz Lima, uma cliente que se tornou amiga e que, além de excelente cantora com voz de anjo, escreve de um jeito que desconcerta e toca fundo. Sinto-me muito honrada por ela ter me dado a autorização de publicar seu depoimento aqui, para inaugurar o blog nesse dia tão importante, o Dia da Consciência Negra.

#MinhaPrimeiraBoneca!

Minha primeira boneca era distante do meu mundo. – Eu não tinha seus cabelos amarelos e escorridos – essa planície lisa – e nem seus olhos cor de céu em dia claro. – Eu, menina terrosa, pé no chão, cabelo emaranhado de sonhos, olhos cor do marrom-do-mundo, cabocla e de todo lugar – toda a minha herança ancestral! – não cabia no ‘belo’. – Meu corpo gordo não cabia em nenhum balé – e nem a mistura de onde vim era perfil para esses espaços. 

– A minha primeira boneca era signo de tudo o que foi massacrado e desfeito em mim – era meu espelho quebrado – sem qualquer representação eu simplesmente não pertencia e era duramente excluída. – Vivi à margem da feminilidade porque não tinha aquele padrão. 

– Beleza mesmo era aquela, uma Barbie ou uma Susi lapidada em uma forma da qual eu não me encaixava – estava ali, a mini-deusa desbotada que era protagonista de todas as histórias felizes que eu podia inventar na minha infância. – Ela podia viver aquilo e ser rainha, princesa, feliz e amada porque era ‘a mais bela’. – Eu não. Haviam me vendido um abismo inalcançável de beleza. – Passei a vida acreditando e tendo a mídia e a indústria reforçando isto.

Eu prendia a selva dos meus cabelos porque não eram adequados nem na periferia do meu mundo e estavam sempre bem amarrados e ali eu continha o que eu era e qualquer chance de florescer a minha beleza e tinha apenas registrado naquele laço-apertado nos meus cabelos a minha vergonha de não ser uma Barbie. 

– A minha primeira boneca reafirmava o que todo mundo me dizia: ‘alisa esse cabelo que voce fica menos feia’. – O padrão nunca teria jugo de crueldade. – Mas tinha. 

– A sociedade respondia como se o meu biotipo a agredisse.

– Me lembro de rezar e pedir para deus para acordar com olhos azuis. A menina mais bonita da rua podia ser Paquita, eu não. Assim foram me desconstruindo e hoje vivo a dureza de me ressignificar.

– Eu podia ser muitas coisas. – Tinha tanto universo nos meus cabelos de selva, no meu pé descalço de mato, na minha alegria em brincar na terra: Eu era a beleza em plena força de ser apenas natureza e ouvi alguma voz contrária que embotou o meu destino e hoje, mesmo quase 40 anos depois, vivo dia a dia a reconstrução da auto-imagem e a natureza do meu corpo. 

– Meus cabelos lindamente emaranhados resistiram; os meus olhos de jabuticaba hoje podem ver a força e a beleza dos lugares de onde vim. 

Da minha geração apenas uma boneca me representou e por ela, por seu direito a viver sua beleza natural e igualdade eu luto: minha [filha] Isabella com sua pele negra-solar, seus cabelos de floresta, seus olhos de céu infinito – negros e constelados – e seu riso de marfim – Eis a minha boneca! – que também não teve boneca que a representasse em sua primeira infância – mas tem uma mãe que fortaleceu o uso de seu cabelo afro e reforçou a história milenar de nossos ancestrais.

– Luto pela representatividade para crianças negras, indígenas, latinas – de todos os povos e toda diversidade. 

– O lúdico constrói o real.

[Luz Lima]

*A Primeira boneca da minha Isabella é uma Sereia feita sob a medida de seus sonhos: ela pode ser o que ela quiser! – Sereia, Princesa, Bailarina, com a forma e todas as cores que quiser usar! Ela pode se reinventar e se imaginar em qualquer lugar. Em seu nome eu luto por seu direito ao sonho. Luto por seu direito de poder chegar. – Um presente lindo feito pela Keikolina. <3

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