Você sabe o que é Minimalismo?

Jogue Fora 50 Coisas, de Gail Blanke

Foi um dos primeiros que li lá na fase em que eu ainda tava beeem em conflito, desejando uma vida mais leve, mas ainda super apegada aos meus “troféus” fossem eles títulos ou objetos. Esse é o único da lista dos que pretendo fazer resenha que eu não tenho fisicamente pra tirar foto, porque achei simbólico passá-lo adiante, pra outra pessoa ler. Afinal o tema principal dele é “como trabalhar o desapego e o quanto a vida pode ser mais leve se tivermos menos coisas pra carregar”.

Quando o assunto é Minimalismo, quase todo mundo lembra da Marie Kondo. Eu li A Mágica da Arrumação também, mas honestamente achei um tanto radical demais e, pior, acho que no fim acaba incentivando mais ainda o consumo, porque ela fala pra jogar TUDO fora, pois “se precisar de novo, é só comprar”. Ou seja, o foco continua sendo em possuir ou não coisas. Dá pra entender, uma vez que a meta dela é ensinar arrumação, não o desapego. Já a Gail Blanke foca em trabalhar o apego mesmo, sobre a necessidade de “precisarmos” das coisas. A pergunta dela não é se “isso está sendo usado?” ou “isso me deixa feliz?”, como defende a Marie Kondo, mas sim, “porque preciso disso?”, “isso vai me levar mais perto de como quero me sentir?”. De forma sensível, faz a gente refletir porque transferimos pra objetos os sentimentos, as frustrações, os medos… E o quanto pode ser libertador perceber qual o limite pessoal de cada um pro Minimalismo. A idéia defendida por Gail não é “quanto menos melhor” mas, sim, que tudo o que mantivermos conosco tenha algum significado real.

E o livro não se atém apenas a reflexões acerca de ítens físicos. Foi depois da leitura dele que comecei a entender a encruzilhada em que me encontrava no meu antigo trabalho: o prestígio de se trabalhar com entretenimento da grande mídia ao custo da minha saúde, a segurança financeira em troca de deixar minha arte engavetada… Percebi que era uma equação meio burra, que estava me matando aos pouquinhos.

O respeito que a autora dá ao significado que damos aos objetos que possuímos também reverberou bastante com o caminho que eu desejava seguir. Afinal, como é que alguém que vende objetos lúdicos pode se considerar Minimalista? Não é contraditório uma pessoa que despertou pra viver sem exageros de consumo viver as custas de vender bonequinhos pra seus clientes? Durante um tempo fiquei realmente nesse dilema, até entender que o Minimalismo que funciona pra mim significa “consumir com critério” e que meus trabalhos são âncoras emocionais, são materializações de sonhos feitos especialmente pra quem encomendou com o propósito de quem encomendou. É praticamente o oposto do boneco da loja do shopping, saca?

Afinal, sejamos sinceras aqui: só por estarmos vivas já estamos degradando o meio ambiente. Danou-se. Se você tá respirando já tá impactando. O que a gente pode fazer é definir com consciência até onde vamos permitir esse impacto e o que vamos fazer pra fazer esse impacto valer a pena. Sim, estou falando de ecologia e de propósito de vida. Podemos reciclar nosso lixo? Podemos utilizar produtos que agridam menos a natureza? Podemos escolher produtos cuja cadeia de produção respeite todos os envolvidos até onde conseguimos rastrear? Podemos minimizar os impactos de nossos vícios no mundo, selecionando melhor o que consumimos (de alimentos a brinquedos, do fundamental pra continuar respirando ao entretenimento puro e simples)?

by Pixabay
Imagem Via Pixabay

Eu trabalho com entretenimento. Minha vida profissional inteira girou em torno do entretenimento. De fato, não há como eu considerá-lo como algo supérfluo. Não apenas por ele pagar minhas contas, mas porque certamente eu teria enlouquecido se não tivesse as folgas mentais, os entorpecimentos cerebrais, as fugas de realidade que o entretenimento, seja ele em livro, série, cinema, desenho animado, bonequinho, adesivos, almofadas estampadas proporcionam. Mas eu não preciso consumir TUDO o que esse entretenimento produz. Não preciso de TODAS as brusinhas nerds que aparecem nas lojas de departamento. Nem de TODOS os bonequinhos brindes de rede de fast food. Posso optar por uma blusa de uma ilustradora que achei na internet, cujo trabalho eu possa acompanhar de perto pra confirmar em tempo real se está comprometida com um lifestyle que tem a ver com o que eu acredito, se fará bom uso do meu dinheirinho suado. É gostoso saber que meu dinheiro vai ajudar a bancar a tinta que a mana vai usar pro próximo projeto. Trampo feito por gente de verdade que enfrenta os mesmos corres que eu. Assim como você pode optar por um boneco de pelúcia/tecido exclusivo, feitos um a um, sob encomenda e muito menos tóxico pro planeta do que bonecos de plástico feitos aos milhões.

Em suma, eu vejo o Minimalismo explicado pela Gail no livro, como uma ferramenta de autoconhecimento, pra filtrar o supérfluo daquilo que tem significado. A questão agora passa a ser definir o que tem significado, certo? É fato que existe a opção “pegar atalho” e fazer o que todo mundo faz, consumir tudo o que nos dizem pra consumir, como nos ensinam na escola que “gente de bem deve fazer”. Porém, sempre achei mais interessante o caminho longo, o caminho com surpresas, o caminho com aventuras paralelas. Definir o destino da viagem, mas deixar a agenda aberta, sabe? Esse modo de encarar a vida aberto a novas experiências fatalmente nos leva ao caminho do autoconhecimento. Porque é preciso se conhecer para saber se aquela experiência foi boa ou não para você. E fica mais leve a viagem se o que precisamos levar conosco couber numa mochila ou mesmo em um trailer (metafórico).

Antes do livro, minha viagem pela vida era norteada por mil e uma justificativas que me podavam. Como um maravilhoso canário premiado e engaiolado. De que adianta conquistar títulos se eles não me levam ao caminho que sonhei pra mim? Traduzindo pro meu contexto, de que adianta ser chefe de redação de Histórias em Quadrinhos de uma editora internacional se eu não podia ser de fato quadrinhista? Tirando os excessos, o que fica? Quem era a tripinha de gente por baixo de toda a parafernália estética, materialista, conceituai, etc, que eu carregava?

Eu ainda não sei, mas comecei a ficar curiosa pra conhecer minha própria tripinha de gente quando li esse livro. E mesmo não encontrando respostas, não me arrependo de iniciar a jornada.

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